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Impérios fictícios

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 24.05.09

 

O Último Imperador: as cores quentes e sensuais de Bertolucci e os sons compassados e arranhados de Sakamoto!
Bertolucci capta a atmosfera irreal, alucinada, demente, de uma China muito muito velha. Como o consegue… não consigo descortinar.
Talvez ele próprio traga consigo, na sua alma romana, operática, uma história de excessos… E por isso entenda, como poucos, esse mundo de ficção, de impérios desligados da realidade.

Mas o que mais me marcou, para sempre, foi aquela sensação de desamparo. As sucessivas perdas de um jovem naquela expressão aflita: Não compreendo…
Não compreenderá nada ao longo do seu percurso. Naquela cidade imperial, prisão num mundo mais vasto, a lógica da violência e da estupidez humanas.
Não compreenderá a última ilusão: a Manchúria. O papel dos japoneses e a sua lógica de domínio e morte.
E tudo o levará à maior tragédia: a doença e a loucura da mulher, a prisão, a humilhação, o abandono, o esquecimento…


Cena impressionante, a da Revolução Cultural, a humilhação pública dos intelectuais. A loucura que nasce da loucura, que se perpetua na loucura e na ficção…
E magnífico encontro, já no final, do velho jardineiro, outrora imperador de um império fictício, e do miúdo, filho do guarda da Cidade Proibida.

 

 

 

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publicado às 20:48

Australia

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 03.05.09

 

Neste fim-de-semana prolongado deu tempo até para ver cinema em casa. Escolhi o Australia, ou foi este filme que me escolheu. É que as cópias já estavam todas esgotadas (1 de Maio!) mas a jovem simpática do Clube Vídeo adiantou-se: Acabaram de entregar uma cópia (era a hora-limite de entrega dos filmes alugados).

Australia veio comigo, pois. Expectativas? Baixas: imaginava-o um filme de encomenda para os actores brilharem e pouco mais. Uma publicidade ao país dos cangurus, também. Um filme de aventuras com todos os ingredientes habituais: herói bonito e corajoso; heroína bonita e rebelde; paixão q.b.; perigos q.b.; diálogos trabalhados ao milímetro para prender a atenção e o interesse; cenas com muita acção, etc.

 

Surpreendentemente, este filme é despretensioso, luminoso, mágico. Não fazia ideia que iria focar a cultura aborígene, que sempre me fascinou, vá-se lá saber porquê.

Começa por nos introduzir aquele terrível racismo: as crianças aborígenes mestiças eram retiradas aos pais e enfiadas numa Missão para ser domesticadas e formatadas segundo a cultura dominante. Também os bares (e outros lugares públicos) eram interditos a pretos.

Ora, o nosso herói (magnífico Hugh Jackman) foge à regra, convive com os pretos. Esta circunstância obriga-o a uma actividade extra (andar à pancada, o chamado boxe de rua ou uma modalidade do boxe, melhor dito, porque aqui tudo vale, até atirar malas de viagem ao adversário).

Esta cena da pancadaria à frente do bar está mesmo fabulosa, lembrou-me os westerns dos anos 40, 50. A Lady Ashley (fabulosa Nicole Kidman) é que não achou graça nenhuma ao ver a sua roupa interior a voar no meio daqueles homens-espectadores, e tocada pelo lutador que ficou de pé: Bem-vinda à Australia!

 

O nosso herói, Drover (o que leva o gado) também tinha sido responsabilizado por levá-la a casa, numa carripana desengonçada. Essa viagem inclui outra série de cenas bem conseguidas e divertidas, a lembrar desta vez os diálogos cheios de equívocos e de provocações bem-humoradas das comédias românticas dos anos 30 (e como o guarda-roupa é dessa época surge quase a ilusão de viajar no tempo).

Drover explica-lhe que é um homem independente: Ninguém me contrata, ninguém me dá ordens. E dir-lhe-á, filosoficamente: A única coisa que temos é a nossa história.

Mas Lady Ashley não se deixa impressionar, para ela tudo aquilo é uma vida de aventura que também terá fascinado o marido. Uma vida sem responsabilidades.

Os equívocos linguísticos são mesmo hilariantes, Drover fala-lhe de cavalos, Lady Ashley vê-lhes um segundo sentido... A sua opinião do marido também não é lá muito famosa. Imagina-o ali numa vida devassa e só mais tarde irá ver a sua verdadeira motivação, o seu sonho, e dar-lhe sequência.

 

Entretanto, passei por cima das cenas iniciais com o miúdo, Nullah, que se apresenta directamente como não sendo branco, nem preto, não tendo lugar... e o avô, King George, que lhe ensina as histórias, as canções mágicas, tornar-se invisível...

Ficamos a saber que Lord Ashley é morto nesse charco com uma lança aborígene, para despistar.

E ficamos a saber também que o miúdo vive apavorado com receio de ir parar à tal Missão, refugiando-se no tanque de água, de onde espreita Lady Ashley, a mulher mais estranha que já tinha visto.

Para ele, Lady Ashley passará a ser Mrs. Boss. E só depois do funeral de Lord Ashley é que a deixa vê-lo e cantará para ela.

Diz-lhe de forma misteriosa: Vai curar esta terra.

 

A verdadeira aventura começa quando Lady Ashley aceita o desafio, esse sonho quase impossível de levar as melhores cabeças de gado para Darwin.

Mas antes será ela a cantar para Nullah, essa canção de sonhos que encaixa tão bem com o imaginário da cultura aborígene. Tem até um feiticeiro, as chuvas, a Serpente do Arco-Íris...

E o sonho começa a tornar-se possível quando até o bêbado Kipling Flynn (o contabilista) aparece sóbrio.

Já repararam nos nomes de todas as personagens, como são de ficção? Até o cozinheiro chinês, Sing Song, não era o mesmo do cozinheiro da série Bonanza?

 

Bem, voltando ao filme: Outra cena deliciosa, a do desfiladeiro, com o Kipling Flynn a tocar a canção de sonhos ("O Feiticeiro de Oz").

O pobre do Kipling, que irá ficar estendido numa largada da manada e perguntará pelo miúdo, antes de pedir um pouco da bebida de reserva que levara à socapa para circunstâncias especiais.

Cena comovente a do miúdo a enfrentar a manada, quase a escorregar pelo precipício. E depois, já nos braços de Lady Ashley, quando o Drover se aproxima e percebe que, pelo menos naquele momento de aflição, são já uma família no plano dos sentimentos. Drover percebe, pela primeira vez, que está ligado àqueles dois.

Nessa segunda noite bebem em memória do Kipling Flynn e dançam o foxtrot, como explicam, atrapalhados, ao miúdo quando lhes pergunta se é uma dança cerimonial.

Também comoventes (pelo menos para mim) estas lines dos nossos heróis, ao despedir-se nessa noite de descobertas: Acho que daria um óptimo pai... Acho que daria uma óptima mãe...

 

Depois da travessia da Terra do Nunca, guiados pelo King George, a corrida para entregar o gado no barco de metal.

Nullah irá ao cinema ver O Feiticeiro de Oz e os nossos heróis dançarão o foxtrot no Baile.

A chuva cai, para alegria de todos! Drover avisa-a: Na estação seca eu irei levar o gado.

Mas agora está a chover.

 

Doloroso dilema, este de uma mãe do coração aceitar que Nullah terá de fazer a caminhada, partir por uns tempos com o avô. Drover dir-lhe-á que sem isso Nullah não terá história, os sonhos necessários à existência.

Eu compreendi quando disseste que querias ser livre. Mas agora é diferente, nós temos o Nullah.

Mas também Drover viverá o seu dilema doloroso, quando o seu irmão o confronta com a dor de que foge para evitar sofrer:

Estás a fugir. Se não tiveres amor no coração não tens nada. Nem sonho, nem história, nem nada.

Esta cena, do diálogo de irmãos, lembrou-me um outro filme mágico, As Vinhas da Ira, mas apenas na atmosfera, no cenário, pois parecia mesmo um cenário por trás. (Ah, a atmosfera de John Ford...).

 

E não foi apenas esta cena a transportar-me para outras atmosferas, de outros filmes. A cena da invasão de Darwin pelos aviões japoneses e do King George a caminhar tranquilo entre as explosões, lembrou-me O Império do Sol de Spielberg, aquela cena do telhado do Hospital, lembram-se?, quando Jim quase enlouquece ao ver os aviões americanos a rasar os telhados? (J. G. Ballard, o Jim, partiu há dias mas para mim também ficará para sempre nas histórias e nas canções mágicas).

 

Contar histórias é o mais importante. É como mantemos connosco as pessoas que amamos.

 

Australia mostrou-me essencialmente que:

- o cinema é uma linguagem universal, que também vive das suas histórias, das suas personagens, das suas canções mágicas...

- a cultura aborígene sabe que a terra tem um poder, e que as canções mágicas formam caminhos onde não nos perdemos...

- a magia do cinema é da mesma matéria dos sonhos e das canções mágicas.

 

 

 

Obs.: Já que a Feira do Livro de Lisboa está aí, sugeria um livro mágico, O Canto Nómada, de Bruce Chatwin (editora Quetzal).

Apenas um excerto:

Na infância, nunca ouvi a palavra 'Australia' sem que me viessem à cabeça os vapores do inalador de eucalipto e a ideia de um país de cor uniformemente vermelha povoado de carneiros. ...

Tinha na estante um livro sobre o continente australiano e eu olhava, maravilhado, para as fotografias dos coalas e dos martins-caçadores, dos ornitorrincos e dos diabos-do-mato da Tasmânia, do Velho Homem Canguru e do Cão Amarelo Dingo, e da ponte do porto de Sydney.

Mas a fotografia de que eu mais gostava era a de uma família aborígene em viagem. Eram magros e esguios e estavam nus. A sua pele era muito preta, não daqule preto brilhante dos negros, mas um preto baço, como se o sol lhes tivesse sugado qualquer possibilidade de reflexo. O homem tinha uma barba comprida em forquilha e transportava uma lança, ou duas, e um arremessador de lanças. A mulher carregava uma sacola e um bébé pendurado ao peito. Um rapazinho caminhava ao lado dela - identifiquei-me com ele.

Lembro-me dos primeiros cinco anos fabulosos que fiquei sem casa. O meu pai estava na Marinha, no mar, e a minha mãe e eu andávamos de um lado para o outro de comboio a visitar amigos e parentes na Inglaterra em tempo de guerra. ...

Quanto a histórias para adormecer, a minha favorita era o conto da cria do coiote do livro de Ernest Thompson Seton, 'Lives of the Hunted.'

Coiotito era o patinho feio de uma ninhada cuja mãe fora morta pelo 'cowboy' chamado Wolfer Jake. Os seus irmãos e irmãs tinham sido abatidos e a sua vida fora poupada para treinar os mastins de Jake. A imagem dele, amarrado, era a coisa mais triste que jamais vira. No entanto, Coiotito cresceu e tornou-se esperto e, certa manhã, fingiu-se de morto e conseguiu escapar para o mato, onde se dedicou a ensinar a toda uma nova geração de coiotes a arte de evitar os homens.

Não consigo agora explicar as associações que me levaram a relacionar a tentativa de evasão de Coiotito com a 'errância' dos Aborígenes australianos. Nem, no que diz respeito a este assunto, quando ouvi a expressão 'errância' pela primeira vez. Contudo, fiquei com uma imagem desses dóceis 'Blackfellows' que, um dia, trabalham despreocupadamente numa fazenda de gado e, no outro, levantam a tenda e desaparecem no ar sem uma palavra de aviso e sem qualquer razão.

Despiam os fatos de trabalho e partiam durante semanas, meses ou até anos a fio, percorrendo meio continente apenas para encontrar alguém e, depois, regressar como se nada tivesse acontecido. ...

 

 

 

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publicado às 20:29


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